Estás despedido!

Janeiro 20, 2012Posted by Abaé

Depois de muito tempo a ponderar sobre assunto decidi que é o melhor para os dois. Não tens competências para o cargo, nunca mostraste vontade de estar nesta posição, não te quero vincular mais a esta função.

Hoje liberto-te podes ser tudo o quiseres, tens potencial para ser soberbo, extraordinário, único. Tens tudo para ser Tudo.

Faz a barba, hoje não bebas nada, compra uma roupa nova, lava a cara e as mãos e entrega-te à vida. Foi a olhar para ti que percebi tudo que podia ser, a diferença é que estou a usar as armas que me deste, que tens e esqueces ter.

Encara esta situação como uma nova oportunidade, gosto demais de ti para me manter agarrado a uma função que só me faz sentir ressentimentos, estou cansado de te culpar por coisas que não sabes, por coisas que não fazes, por mil e uma coisas que nem eu sei porque te culpo. Não te quero culpar, julgar ou cruxificar por acções que nunca fizeste.

Quero-te para sempre na minha vida porque te amo. Podes ser meu amigo, meu tio, meu irmão…

Mas de meu Pai… estas despedido

Brincadeira de bonecas

Janeiro 17, 2012Posted by flour

Tomar decisões costumava ser mais simples. Adormecer para o lado direito ou para o lado esquerdo de uma cama só minha. Cerrar as cortinas e envolver-me no silêncio da noite ou abrir-me ao ruído da claridade matinal. Optar entre o bolo de chocolate e o pudim de castanhas. Usar pijama ou camisa de noite para dormir. As escolhas só a mim me pertenciam. Costumava seleccionar quem era meu amigo e quem não era. A quem dedicaria eu a minha compreensão. O rapaz calado e discreto por quem me apaixonaria. Aquele que estaria ali, visível a mim e imperceptível a outros olhares. Aquele cujos pensamentos me intrigavam até ao limite da minha especulação. E que delicioso era desconhecer o espírito por detrás daqueles olhos bonitos.

Julgo que até no desgosto de amor conseguia desfrutar uma espécie de prazer. Abatia-me, sofrida, sobre o edredão morno da minha cama de corpo e meio, braços sufocando a almofada contra o rosto salgado em lágrimas, num acto improvisado no esplendor do meu padecimento. Era uma angústia minha e sobre a qual detinha plenos direitos. Era fantástico ser tocada pela magia do amor, ainda que por um amor imaturo, desajeitado e irreflectido. Todos os sinónimos da idade. Mesmo que essa fátua embriaguez me atropelasse como um vagão. Atravessava milhas, à distância de um corredor, onde me quedava no amparo da minha outra metade. Ser acolhida, sem pensar, por um rosto simétrico e seguro, fitar uns olhos desenhados à minha imagem num carinho involuntário situava-me exactamente onde pretendia estar.

Saudades desse carinho, dos seus olhos, meus. Da gargalhada irreprimida. Ver a felicidade genuína, mesmo ali ao lado. E fazer dela, a minha.

Cabelos dourados e cheiro de boneca. Minha amiga irmã. Sinto a tua falta aqui ao meu lado.

Uma hora

Janeiro 05, 2012Posted by flour

Ela quer escrever uma história sem palavras. Quer saber que existe, ver-se ao espelho através de estranhos. Esse mundo eclipsado, de reflexos fugidios e de bebidas brilhantes, escuta a música, as batidas compassadas com o ritmo do seu peito. Imerge num sítio estranho, onde todos são um, onde todos sorriem pela mesma emoção que a música provoca. E a música provoca. A música cresce dentro de si e imobiliza tudo em seu redor. Só ela existe naquele quadrado de pista. Fecha os olhos e deixa que o corpo a leve. Vários olhares são cruzados, olhares que desafiam, que enganam, que mentem, deliciosos. Mentiras que nascem e morrem em minutos. Uma hora. É o que tem para dar. Abraça a mentira, fá-la sua. Mãos que se tocam, sem querer, e porque querem. O seu pensamento está longe. Brincam com o seu cabelo e ela permite. Sussurram-lhe palavras ao ouvido que nem ouve. Lábios que acariciam o seu pescoço. São outros os lábios que sente. Não consegue dominar a angústia da solidão. E liberta sorrisos, oferece beijos, troca carícias. Tudo que a faça pertencer a um sentimento maior. Mas os sentimentos não se forçam, as sensações ganham vida, o calor aproxima e a luz do dia desperta. Ao longe, alguns amigos. Não a julgam, não o podem fazer. Estão lá. Sempre. Observam-na de longe, querendo protege-la de si própria, mas não o fazendo.

Há uma mão que a aproxima pela cintura e lhe segreda coisas que ela não entende. Sente um arrepio. Um cheiro que já conhece, uma carícia ébria, uma voz morna. Conversa antigas que a perturbam. Inquietantes. Sabe que não pode demorar os seus olhos nos que a fitam, pois não lhos saberá mentir. A curiosidade que não era suposto. A vontade do que faz mal.

As portas abrem-se, as luzes erguem-se, a voz cambaleia. Pousa o copo esgotado no balcão atrás de si. Veste o casaco. Respira fundo. E com o copo deixa a hora que já não lhe pertence.

Escárnio e maus fígados

Janeiro 05, 2012Posted by flour

Não é assim. É errado. Foi um erro. Teu. Eu que me enganei. Não aceito que alguém me desconsidere assim. Ninguém. Não te reconheço esse direito. Não te admito. Eu sou mais do que isso. Muito maior. Quero flores. Aromas quentes e sabores doces. Um vinho morno e velas acesas. Palavras lisonjeiras. Cortejos. Passadeira vermelha ou o teu casaco no chão, porque o chão que tu pisas não é digno dos meus pés. O teu olhar é inofensivo. E os teus gestos, poupa-os, não me afectam. São ridículos. Insignificantes. Supérfluos, vazios. És demasiado fútil e cheio de ti próprio. A tua presença nem sequer me chega a incomodar. A tua ausência não é notada. A tua voz é monótona. O teu discurso insolente. Estás habituado a mulheres fáceis e lineares. Coisas rápidas de fazer e desfazer. Eu não sou isso. Sou muito mais. Não tens uma pequenina noção de mim porque o teu raciocínio é demasiado elementar para entender uma mulher como eu. Não te iludas. Já me esqueci. Nem ficou marca, nem sequer uma linha, um traço esbatido.

E só para fechar este assunto. Não és tu que me escolhes. Sou eu que decido não te escolher.